Poesias e poemas de Mário Quintana

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  • Quem Sabe um Dia]

    Quem Sabe um Dia
    Quem sabe um dia
    Quem sabe um seremos
    Quem sabe um viveremos
    Quem sabe um morreremos!

    Quem é que
    Quem é macho
    Quem é fêmea
    Quem é humano, apenas!

    Sabe amar ... Ver más
    Sabe de mim e de si
    Sabe de nós
    Sabe ser um!

    Um dia
    Um mês
    Um ano
    Um(a) vida!

    Sentir primeiro, pensar depois
    Perdoar primeiro, julgar depois
    Amar primeiro, educar depois
    Esquecer primeiro, aprender depois

    Libertar primeiro, ensinar depois
    Alimentar primeiro, cantar depois

    Possuir primeiro, contemplar depois
    Agir primeiro, julgar depois

    Navegar primeiro, aportar depois
    Viver primeiro, morrer depois

    Mário Quintana ver menos

    Por Ivaneide E - Agosto 01 2009
  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    O MAPA

    Olho o mapa da cidade
    Como quem examinasse
    A anatomia de um corpo...

    (É nem que fosse o meu corpo!)

    Sinto uma dor infinita
    Das ruas de Porto Alegre
    Onde jamais passarei...

    Há tanta esquina esquisita,
    ... Ver más Tanta nuança de paredes,
    Há tanta moça bonita
    Nas ruas que não andei
    (E há uma rua encantada
    Que nem em sonhos sonhei...)

    Quando eu for, um dia desses,
    Poeira ou folha levada
    No vento da madrugada,
    Serei um pouco do nada
    Invisível, delicioso

    Que faz com que o teu ar
    Pareça mais um olhar,
    Suave mistério amoroso,
    Cidade de meu andar
    (Deste já tão longo andar!)

    E talvez de meu repouso...

    Mario Quintana - Apontamentos de História Sobrenatural



    OS DEGRAUS

    Não desças os degraus do sonho
    Para não despertar os monstros.
    Não subas aos sótãos - onde
    Os deuses, por trás das suas máscaras,
    Ocultam o próprio enigma.
    Não desças, não subas, fica.
    O mistério está é na tua vida!
    E é um sonho louco este nosso mundo...

    Mario Quintana - Baú de Espantos



    DESTINO ATROZ

    Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.

    Mario Quintana (Caderno H)



    POEMINHA SENTIMENTAL

    O meu amor, o meu amor, Maria
    É como um fio telegráfico da estrada
    Aonde vêm pousar as andorinhas...
    De vez em quando chega uma
    E canta
    (Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
    Canta e vai-se embora
    Outra, nem isso,
    Mal chega, vai-se embora.
    A última que passou
    Limitou-se a fazer cocô
    No meu pobre fio de vida!
    No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
    As andorinhas é que mudam.

    Mario Quintana - Preparativos de Viagem



    SEMPRE QUE CHOVE

    Sempre que chove
    Tudo faz tanto tempo...
    E qualquer poema que acaso eu escreva
    Vem sempre datado de 1779!

    Mario Quintana - Preparativos de Viagem ver menos

  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    POEMA DA GARE DE ASTAPOVO

    O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
    E foi morrer na gare de Astapovo!
    Com certeza sentou-se a um velho banco,
    Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
    Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
    Contra uma parede nua...
    Sentou-se ...e sorriu amargamente
    Pensando que ... Ver más
    Em toda a sua vida
    Apenas restava de seu a Gloria,
    Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
    Coloridas
    Nas mãos esclerosadas de um caduco!
    E entao a Morte,
    Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
    Na estação deserta,
    Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
    Quando apenas sentara para descansar um pouco!
    A morte chegou na sua antiga locomotiva
    (Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
    Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
    E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...
    Ele fugiu de casa...
    Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
    Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

    Mario Quintana



    I

    Escrevo diante da janela aberta.
    Minha caneta é cor das venezianas:
    Verde!... E que leves, lindas filigranas
    Desenha o sol na página deserta!

    Não sei que paisagista doidivanas
    Mistura os tons... acerta... desacerta...
    Sempre em busca de nova descoberta,
    Vai colorindo as horas quotidianas...

    Jogos da luz dançando na folhagem!
    Do que eu ia escrever até me esqueço...
    Pra que pensar? Também sou da paisagem...

    Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
    E me transmuto... iriso-me... estremeço...
    Nos leves dedos que me vão pintando!

    Mario Quintana - A Rua dos Cataventos



    DO ESTILO

    O estilo é uma dificuldade de expressão.

    Mario Quintana (Caderno H)



    OBSESSÃO DO MAR OCEANO

    Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
    Que vento bom sopra do Mar Oceano!
    Meu amor eu nem sei como se chama,
    Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
    Mas há vasos cobertos de conchinhas
    Sobre as mesas... e moças na janelas
    Com brincos e pulseiras de coral...
    Búzios calçando portas... caravelas
    Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
    Nisto,
    Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
    E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
    De su'alma perdida e vaga na neblina...
    Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
    Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
    Uma caixa de música
    Uma bússola
    Um mapa figurado
    Uns poemas cheios de beleza única
    De estarem inconclusos...
    Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
    E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
    Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
    Quando eu também já não tiver mais nome.

    Mario Quintana - O Aprendiz de Feiticeiro



    DA OBSERVAÇÃO

    Não te irrites, por mais que te fizerem...
    Estuda, a frio, o coração alheio.
    Farás, assim, do mal que eles te querem,
    Teu mais amável e sutil recreio...

    Mario Quintana - Espelho Mágico



    DOS MUNDOS

    Deus criou este mundo. O homem, todavia,
    Entrou a desconfiar, cogitabundo...
    Decerto não gostou lá muito do que via...
    E foi logo inventando o outro mundo.

    Mario Quintana - Espelho Mágico ver menos

  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    ESPELHO

    Por acaso, surpreendo-me no espelho:
    Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? (...)
    Parece meu velho pai - que já morreu! (...)
    Nosso olhar duro interroga:
    "O que fizeste de mim?" Eu pai? Tu é que me invadiste.
    Lentamente, ruga a ruga... Que importa!
    Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre ... Ver más
    E os teus planos enfim lá se foram por terra,
    Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra!
    Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste...

    Mario Quintana



    Um bom poema é aquele que nos dá a impressão
    de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!

    Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo



    A RUA DOS CATAVENTOS

    Da vez primeira em que me assassinaram,
    Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
    Depois, a cada vez que me mataram,
    Foram levando qualquer coisa minha.

    Hoje, dos meu cadáveres eu sou
    O mais desnudo, o que não tem mais nada.
    Arde um toco de Vela amarelada,
    Como único bem que me ficou.

    Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
    Pois dessa mão avaramente adunca
    Não haverão de arracar a luz sagrada!

    Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
    Que a luz trêmula e triste como um ai,
    A luz de um morto não se apaga nunca!

    Mario Quintana



    CLAREIRAS

    Se um autor faz você voltar atrás na leitura, seja de um período ou de uma simples frase, não o julgue profundo demais, não fique complexado: o inferior é ele.

    A atual crise de expressão, que tanto vem alarmando a velha-guarda que morre mas não se entrega, não deve ser propriamente de expressão, mas de pensamento. Como é que pode escrever certo quem não sabe ao certo o que procura dizer?

    Em meio à intrincada selva selvaggia de nossa literatura encontram-se às vezes, no entanto, repousantes clareiras. E clareira pertence à mesma família etimológica de clareza... Que o leitor me desculpe umas considerações tão óbvias. É que eu desejava agradecer, o quanto antes, o alerta repouso que me proporcionaram três livros que li na última semana: Rio 1900 de Brito Broca, Fronteira, de Moysés Vellinho e Alguns Estudos, de Carlos Dante de Moraes.

    Porque, ao ler alguém que consegue expressar-se com toda a limpidez, nem sentimos que estamos lendo um livro: é como se o estivéssemos pensando.

    E, como também estive a folhear o velho Pascall, na edição Globo, encontrei providencialmente em meu apoio estas palavras, à pág. 23 dos Pensamentos:

    "Quando deparamos com o estilo natural, ficamos pasmados e encantados, como se esperássemos ver um autor e encontrássemos um homem".

    Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo ver menos

  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    BILHETE

    Se tu me amas,
    ama-me baixinho.

    Não o grites de cima dos telhados,
    deixa em paz os passarinhos.

    Deixa em paz a mim!

    Se me queres,
    enfim,

    .....tem de ser bem devagarinho,
    ... Ver más .....amada,

    .....que a vida é breve,
    .....e o amor
    .....mais breve ainda.

    Mario Quintana



    OS POEMAS

    Os poemas são pássaros que chegam
    não se sabe de onde e pousam
    no livro que lês.
    Quando fechas o livro, eles alçam vôo
    como de um alçapão.
    Eles não têm pouso
    nem porto;
    alimentam-se um instante em cada
    par de mãos e partem.
    E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
    no maravilhado espanto de saberes
    que o alimento deles já estava em ti...

    Mario Quintana - Esconderijos do Tempo



    SEISCENTOS E SESSENTA E SEIS

    A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
    Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
    Quando se vê, já é 6ªfeira...
    Quando se vê, passaram 60 anos...
    Agora, é tarde demais para ser reprovado...
    E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
    eu nem olhava o relógio.
    seguia sempre, sempre em frente ...

    E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

    Mario Quintana ( In: Esconderijo do tempo) ver menos

  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

    Eu sou um homem fechado.
    O mundo me tornou egoísta e mau.
    E a minha poesia é um vício triste,
    Desesperado e solitário
    Que eu faço tudo por abafar.

    Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
    Com o teu passo leve,
    Com esses teus cabelos... ... Ver más

    E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
    nada, numa alegria atônita...

    A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
    Aonde viessem pousar os passarinhos.

    Mario Quintana ver menos

  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

    Eu escrevi um poema triste
    E belo, apenas da sua tristeza.
    Não vem de ti essa tristeza
    Mas das mudanças do Tempo,
    Que ora nos traz esperanças
    Ora nos dá incerteza...
    Nem importa, ao velho Tempo,
    Que sejas fiel ou infiel...
    Eu fico, junto à correnteza, ... Ver más
    Olhando as horas tão breves...
    E das cartas que me escreves
    Faço barcos de papel!

    Mario Quintana - A Cor do Invisível ver menos

  • Ivaneide E escribió - Agosto 01 2009

    AH! OS RELÓGIOS

    Amigos, não consultem os relógios
    quando um dia eu me for de vossas vidas
    em seus fúteis problemas tão perdidas
    que até parecem mais uns necrológios...

    Porque o tempo é uma invenção da morte:
    não o conhece a vida - a verdadeira -
    em que basta um momento de poesia
    para nos dar a... Ver más eternidade inteira.

    Inteira, sim, porque essa vida eterna
    somente por si mesma é dividida:
    não cabe, a cada qual, uma porção.

    E os Anjos entreolham-se espantados
    quando alguém - ao voltar a si da vida -
    acaso lhes indaga que horas são...

    Mario Quintana - A Cor do Invisível ver menos

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